Faz amanhã um ano que fiquei com a casa só para mim, ou que a casa se deixou ficar só comigo. Dia 10 de Junho do ano passado estava mau tempo. Este ano está um sol morninho e uma brisa que faz festinhas nos braços. Os passarinhos sacodem o Maio chuvoso com chilreios e não consigo resistir a estar aqui na varanda sentada no nosso novo baloiço às riscas verdes. O Miró e o Tobias estão lá em baixo na relva e dormir à sombra. Não me apetece nada estudar!...
Olho para a casa da vizinha, que felizmente é a tia Cacilda, e penso na vida e nos seus maus momentos. O pior duma vicissitude é ela passar sem que nós tenhamos retido pelo menos uma de duas coisas: lições e amigos.
A minha vicissitude(zita), que agora é um modo de vida, concedeu-me as duas coisas. Pelas duas estou grata, mas aprecio especialmente a segunda.
Porque tenho aquela avó que vem fazer-me sopa quando estou adoentada. E aquele primo que aparece sem avisar porque não precisa e fica aí horas na conversa. E aquele namorado que mesmo longe está sempre presente. E aquelas tias que estão lá para o que for preciso, que me convidam para almoçar nos fins-de-semana, que vão para a cama preocupadas porque chego muito tarde da faculdade, que me mandam tachinhos com petiscos e coisinhas da horta. E aquele pai que liga muito mais vezes. E aquelas amigas que insistem em telefonar, mandar mensagens e aparecer cá em casa. Obrigada.